Evidências para fortalecer a proteção às mulheres
Recomendações para políticas públicas
Pesquisa, mapeamento territorial e incidência na Região Metropolitana de Goiânia
21 municípios · escuta territorial · dados públicos
A redeconecta reúne serviços de proteção às mulheres e também produz conhecimento sobre como essa rede funciona na prática. O mapeamento dos serviços nos 21 municípios da Região Metropolitana de Goiânia, articulado à pesquisa “As mulheres e a produção do espaço urbano de Goiânia” e à escuta territorial, revelou padrões que ajudam a compreender por que tantas mulheres ainda encontram barreiras para acessar proteção.
As recomendações desta página resultam do diálogo entre dados territoriais, experiências vividas, pesquisa acadêmica e literatura especializada. Seu objetivo é contribuir para o aperfeiçoamento das políticas públicas municipais, estaduais e federais de enfrentamento à violência contra as mulheres.
Para quem é este documento. Gestoras e gestores públicos, pesquisadoras, organizações da sociedade civil, coletivos feministas, profissionais da rede de proteção e demais pessoas envolvidas na formulação, execução e avaliação de políticas para as mulheres.
Como ler
O que encontramos
Dados e relatos da pesquisa.
O que isso significa
Interpretação dos achados.
O que pode mudar
Recomendações concretas.
Fundamentação
Base técnica e limites.
A estrutura real da proteção começa nas relações de confiança
O que encontramos
Quando perguntadas qual porta realmente funciona para buscar proteção, 35% das participantes citaram a rede informal — amigas, familiares e vizinhas — e 26% citaram coletivos de mulheres, totalizando 61% das respostas.
A delegacia aparece como uma das portas mais conhecidas, mas não como a primeira referência de confiança.
O que isso significa
A proteção costuma começar antes da chegada ao Estado. Ela nasce nas relações construídas nos territórios, onde confiança, proximidade e conhecimento da realidade local antecedem qualquer protocolo institucional.
A rede informal não substitui o dever do poder público. Ela revela por onde as mulheres de fato conseguem entrar na rede e onde a política precisa se conectar melhor com a vida cotidiana.
O que pode mudar
Reconhecer coletivos feministas e organizações comunitárias como parte estruturante da rede de proteção, com visibilidade institucional, fomento contínuo, formação permanente e participação formal nos fluxos de atendimento.
Criar mecanismos de integração que fortaleçam essas redes sem burocratizá-las e garantir que encaminhamentos realizados por coletivos tenham acesso efetivo aos serviços públicos.
Fundamentação técnica
O Programa Mulher, Viver sem Violência reconhece a revitimização na rota fragmentada de busca por atendimento. A literatura sobre redes de proteção também aponta que serviços isolados tendem a operar segundo suas próprias lógicas, sem continuidade entre as etapas do cuidado.
Dependência financeira mantém muitas mulheres na violência, mas autonomia econômica precisa caminhar junto com proteção
O que encontramos
Na escuta territorial, 48% das participantes apontaram a dependência financeira como o principal obstáculo para sair de uma situação de violência. Medo do agressor e vergonha ou culpa apareceram com 22% cada.
Mulheres com filhos pequenos receberam 22% das menções entre os grupos mais desassistidos, acima das menções isoladas a mulheres da periferia urbana e da zona rural, com 17% cada.
Dos 21 municípios da Região Metropolitana de Goiânia, 20 não possuem serviços de autonomia econômica mapeados pela redeconecta. As poucas iniciativas identificadas concentram-se em Goiânia.
O que isso significa
Conhecer os serviços ou possuir renda própria não garante, por si só, o rompimento da violência. A transição econômica pode aumentar o risco quando ameaça a posição de controle do agressor.
Proteção e autonomia econômica devem caminhar juntas, sem que uma seja tratada como substituta da outra.
O que pode mudar
Integrar transferência de renda emergencial, moradia transitória, qualificação profissional, inclusão produtiva, cooperativismo e microcrédito ao fluxo de proteção desde o primeiro atendimento.
Associar programas de autonomia a planos de segurança, avaliação de risco e acompanhamento continuado, especialmente durante deslocamentos, formação profissional e ingresso no trabalho.
Fundamentação técnica
Dados nacionais citados na pesquisa reforçam a dependência financeira como obstáculo, mas também mostram que mulheres economicamente ativas continuam expostas à violência. O achado sustenta uma abordagem integrada entre renda, segurança e proteção social.
A fragmentação da rede compromete a proteção às mulheres
O que encontramos
Demora no atendimento, com 22%, e falta de articulação entre serviços, com 17%, aparecem como os principais pontos de ruptura identificados na escuta territorial.
A articulação entre coletivos e serviços públicos, por outro lado, foi apontada como a iniciativa que mais funciona, com 23% das menções.
O que isso significa
A rede não falha apenas pela ausência de serviços. Ela também falha quando os serviços existentes operam de forma isolada.
A revitimização ocorre quando a mulher precisa repetir sua história, apresentar novamente as mesmas provas e assumir sozinha a responsabilidade de circular entre instituições que não se comunicam.
O que pode mudar
Formalizar fluxos intersetoriais entre assistência social, saúde, segurança pública, justiça e coletivos, com responsabilidades nomeadas e prazos de resposta.
Implantar referência e contrarreferência, registro compartilhado com consentimento e proteção de dados, e acompanhamento de caso por uma referência principal ao longo de todo o percurso.
Cada município da Região Metropolitana de Goiânia deve manter um mapa atualizado de fluxos, responsáveis e indicadores de resultado.
Fundamentação técnica
A literatura nacional sobre atendimento às mulheres aponta fragmentação, descontinuidade do acompanhamento e revitimização institucional. Experiências de atendimento integrado buscam responder exatamente a essas rupturas.
Desigualdades diferentes exigem respostas diferentes
O que encontramos
A escuta territorial registrou relatos recorrentes de revitimização no atendimento de saúde, especialmente nos direitos reprodutivos e na gestação. Um dos relatos associa diretamente racismo obstétrico e falhas estruturais no atendimento às mulheres negras.
O mapeamento também identifica ausência de serviços especializados em municípios rurais e barreiras agravadas para mulheres negras, indígenas, trans, com deficiência, moradoras de periferias e mulheres com filhos pequenos.
O que isso significa
A violência contra as mulheres não é vivida da mesma forma por todas. Raça, classe, identidade de gênero, deficiência, território e responsabilidades de cuidado modificam o risco e o acesso à proteção.
Um atendimento genérico pode reproduzir desigualdades quando ignora essas diferenças.
O que pode mudar
Instituir formação continuada antirracista, anti-LGBTfóbica e capacitista para profissionais da rede, com atualização periódica e avaliação de resultados.
Desenvolver protocolos específicos para mulheres negras, indígenas, trans e com deficiência; garantir abrigo compatível com a identidade de gênero; ampliar serviços itinerantes para zonas rurais e territórios distantes.
Produzir dados desagregados e diagnósticos municipais sobre quem acessa, quem abandona e quem permanece sem atendimento.
Fundamentação técnica
A literatura sobre racismo institucional, violência obstétrica e interseccionalidade sustenta que barreiras diferentes exigem respostas diferenciadas. A escuta da redeconecta indica que essas desigualdades aparecem na experiência concreta de acesso aos serviços.
Quando a ausência de um serviço deixa de ser visível, a proteção também enfraquece
O que encontramos
A Casa da Mulher Brasileira de Goiânia foi anunciada como serviço integrado de proteção. Segundo os dados utilizados na pesquisa, a obra foi rescindida em dezembro de 2025 com 27% de execução e sem data prevista de inauguração.
A redeconecta classifica o equipamento como “Em implantação / Não acionável”. O registro permanece visível para nomear a lacuna, não para orientar atendimento.
O que isso significa
Quando um serviço aparece em registros oficiais como existente, mesmo sem estar disponível, produz-se uma ficção administrativa que distorce diagnósticos, pesquisas e decisões orçamentárias.
Nomear publicamente a ausência é parte da incidência política e evita que um serviço inexistente seja contado como resposta efetiva.
O que pode mudar
Retomar a obra com cronograma público, orçamento transparente e prestação periódica de contas ou corrigir oficialmente os registros para que o serviço não apareça como disponível.
Enquanto a unidade não estiver acionável, priorizar alternativas regionais de acolhimento e proteção nos municípios sem estrutura suficiente.
Fundamentação técnica
Os dados sobre execução da obra e situação administrativa devem ser revisados e datados antes de cada publicação, porque podem sofrer alteração.
Violência digital é uma estratégia de silenciamento das mulheres no espaço público
O que encontramos
Dados nacionais reunidos pela pesquisa apontam altos níveis de ataques virtuais contra mulheres, especialmente jornalistas, ativistas, pesquisadoras e mulheres que ocupam funções públicas.
As agressões incluem ameaças, perseguição, divulgação de dados pessoais, campanhas coordenadas de difamação e tentativas de expulsar mulheres dos espaços de participação digital.
O que isso significa
A violência digital não é um problema separado das outras violências de gênero. Ela pode acompanhar violência doméstica, violência política, perseguição e controle econômico.
Quando ataques digitais são tratados apenas como conflito de redes sociais, perde-se a dimensão de gênero, o risco físico e a estratégia de silenciamento.
O que pode mudar
Incluir a violência digital nos fluxos de proteção, com avaliação integrada de risco físico, psicológico, político e digital.
Criar protocolos especializados para jornalistas, políticas, ativistas, pesquisadoras e outras mulheres expostas a ataques coordenados.
Fortalecer investigação de ameaças, perseguição e divulgação de dados pessoais; responsabilizar plataformas pela resposta a conteúdos de ódio e garantir mecanismos de preservação de provas e proteção da privacidade.
Fundamentação técnica
A análise feminista ajuda a compreender a violência digital como continuação das estruturas que historicamente restringem a presença das mulheres no espaço público. A formulação de políticas precisa combinar segurança, direitos, responsabilização e proteção de dados.
Como estas evidências foram produzidas
- Mapeamento dos serviços de proteção nos 21 municípios da Região Metropolitana de Goiânia, realizado pela redeconecta entre 2024 e 2026.
- Escuta territorial com 23 respondentes, incluindo mulheres com experiência vivida, coletivos, pesquisadoras e lideranças.
- Pesquisa quantitativa “As mulheres e a produção do espaço urbano de Goiânia”, realizada em 2021, com 188 respondentes.
- Literatura acadêmica sobre revitimização institucional, racismo institucional em saúde, violência obstétrica, fragmentação urbana, patriarcado, capitalismo e produção do espaço.
- Dados públicos de órgãos federais, estaduais e municipais.
Limites da pesquisa
- A escuta territorial, com 23 respondentes, não constitui amostra probabilística. Ela aponta padrões e experiências relevantes, mas não autoriza generalizações estatísticas para toda a população.
- A pesquisa ainda não possui avaliação sistemática da efetividade de cada serviço mapeado. As recomendações sobre integração apoiam-se na escuta e na literatura sobre fragmentação institucional.
- Os dados sobre mulheres negras, trans, indígenas e com deficiência vêm principalmente da escuta qualitativa e da literatura especializada, e ainda precisam ser ampliados por pesquisas desagregadas.
- Dados administrativos e números de serviços podem mudar. Devem ser apresentados sempre com data de atualização e fonte identificada.
Pesquisa com rigor, incidência com responsabilidade.
As limitações não enfraquecem as recomendações. Elas mostram o que já sabemos, o que ainda precisamos pesquisar e por que a política pública deve agir com rigor e transparência, sem esperar por dados perfeitos.
Este documento deve ser atualizado continuamente à medida que novos dados, pesquisas e contribuições forem incorporados à redeconecta.
redeconecta · Uma iniciativa da ACCA — Associação Cultura, Cidade e Arte
