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Evidências para fortalecer a proteção às mulheres

Recomendações para políticas públicas

Pesquisa, mapeamento territorial e incidência na Região Metropolitana de Goiânia

21 municípios · escuta territorial · dados públicos

Apresentação

A redeconecta reúne serviços de proteção às mulheres e também produz conhecimento sobre como essa rede funciona na prática. O mapeamento dos serviços nos 21 municípios da Região Metropolitana de Goiânia, articulado à pesquisa “As mulheres e a produção do espaço urbano de Goiânia” e à escuta territorial, revelou padrões que ajudam a compreender por que tantas mulheres ainda encontram barreiras para acessar proteção.

As recomendações desta página resultam do diálogo entre dados territoriais, experiências vividas, pesquisa acadêmica e literatura especializada. Seu objetivo é contribuir para o aperfeiçoamento das políticas públicas municipais, estaduais e federais de enfrentamento à violência contra as mulheres.

Para quem é este documento. Gestoras e gestores públicos, pesquisadoras, organizações da sociedade civil, coletivos feministas, profissionais da rede de proteção e demais pessoas envolvidas na formulação, execução e avaliação de políticas para as mulheres.

21municípios mapeados
23vozes na escuta territorial
188respondentes da pesquisa
6eixos de evidências

Como ler

1

O que encontramos

Dados e relatos da pesquisa.

2

O que isso significa

Interpretação dos achados.

3

O que pode mudar

Recomendações concretas.

4

Fundamentação

Base técnica e limites.

1 · Evidência

A estrutura real da proteção começa nas relações de confiança

O que encontramos

Quando perguntadas qual porta realmente funciona para buscar proteção, 35% das participantes citaram a rede informal — amigas, familiares e vizinhas — e 26% citaram coletivos de mulheres, totalizando 61% das respostas.

A delegacia aparece como uma das portas mais conhecidas, mas não como a primeira referência de confiança.

O que isso significa

A proteção costuma começar antes da chegada ao Estado. Ela nasce nas relações construídas nos territórios, onde confiança, proximidade e conhecimento da realidade local antecedem qualquer protocolo institucional.

A rede informal não substitui o dever do poder público. Ela revela por onde as mulheres de fato conseguem entrar na rede e onde a política precisa se conectar melhor com a vida cotidiana.

O que pode mudar

Reconhecer coletivos feministas e organizações comunitárias como parte estruturante da rede de proteção, com visibilidade institucional, fomento contínuo, formação permanente e participação formal nos fluxos de atendimento.

Criar mecanismos de integração que fortaleçam essas redes sem burocratizá-las e garantir que encaminhamentos realizados por coletivos tenham acesso efetivo aos serviços públicos.

Fundamentação técnica

O Programa Mulher, Viver sem Violência reconhece a revitimização na rota fragmentada de busca por atendimento. A literatura sobre redes de proteção também aponta que serviços isolados tendem a operar segundo suas próprias lógicas, sem continuidade entre as etapas do cuidado.

2 · Evidência

Dependência financeira mantém muitas mulheres na violência, mas autonomia econômica precisa caminhar junto com proteção

O que encontramos

Na escuta territorial, 48% das participantes apontaram a dependência financeira como o principal obstáculo para sair de uma situação de violência. Medo do agressor e vergonha ou culpa apareceram com 22% cada.

Mulheres com filhos pequenos receberam 22% das menções entre os grupos mais desassistidos, acima das menções isoladas a mulheres da periferia urbana e da zona rural, com 17% cada.

Dos 21 municípios da Região Metropolitana de Goiânia, 20 não possuem serviços de autonomia econômica mapeados pela redeconecta. As poucas iniciativas identificadas concentram-se em Goiânia.

O que isso significa

Conhecer os serviços ou possuir renda própria não garante, por si só, o rompimento da violência. A transição econômica pode aumentar o risco quando ameaça a posição de controle do agressor.

Proteção e autonomia econômica devem caminhar juntas, sem que uma seja tratada como substituta da outra.

O que pode mudar

Integrar transferência de renda emergencial, moradia transitória, qualificação profissional, inclusão produtiva, cooperativismo e microcrédito ao fluxo de proteção desde o primeiro atendimento.

Associar programas de autonomia a planos de segurança, avaliação de risco e acompanhamento continuado, especialmente durante deslocamentos, formação profissional e ingresso no trabalho.

Fundamentação técnica

Dados nacionais citados na pesquisa reforçam a dependência financeira como obstáculo, mas também mostram que mulheres economicamente ativas continuam expostas à violência. O achado sustenta uma abordagem integrada entre renda, segurança e proteção social.

3 · Evidência

A fragmentação da rede compromete a proteção às mulheres

O que encontramos

Demora no atendimento, com 22%, e falta de articulação entre serviços, com 17%, aparecem como os principais pontos de ruptura identificados na escuta territorial.

A articulação entre coletivos e serviços públicos, por outro lado, foi apontada como a iniciativa que mais funciona, com 23% das menções.

O que isso significa

A rede não falha apenas pela ausência de serviços. Ela também falha quando os serviços existentes operam de forma isolada.

A revitimização ocorre quando a mulher precisa repetir sua história, apresentar novamente as mesmas provas e assumir sozinha a responsabilidade de circular entre instituições que não se comunicam.

O que pode mudar

Formalizar fluxos intersetoriais entre assistência social, saúde, segurança pública, justiça e coletivos, com responsabilidades nomeadas e prazos de resposta.

Implantar referência e contrarreferência, registro compartilhado com consentimento e proteção de dados, e acompanhamento de caso por uma referência principal ao longo de todo o percurso.

Cada município da Região Metropolitana de Goiânia deve manter um mapa atualizado de fluxos, responsáveis e indicadores de resultado.

Fundamentação técnica

A literatura nacional sobre atendimento às mulheres aponta fragmentação, descontinuidade do acompanhamento e revitimização institucional. Experiências de atendimento integrado buscam responder exatamente a essas rupturas.

4 · Evidência

Desigualdades diferentes exigem respostas diferentes

O que encontramos

A escuta territorial registrou relatos recorrentes de revitimização no atendimento de saúde, especialmente nos direitos reprodutivos e na gestação. Um dos relatos associa diretamente racismo obstétrico e falhas estruturais no atendimento às mulheres negras.

O mapeamento também identifica ausência de serviços especializados em municípios rurais e barreiras agravadas para mulheres negras, indígenas, trans, com deficiência, moradoras de periferias e mulheres com filhos pequenos.

O que isso significa

A violência contra as mulheres não é vivida da mesma forma por todas. Raça, classe, identidade de gênero, deficiência, território e responsabilidades de cuidado modificam o risco e o acesso à proteção.

Um atendimento genérico pode reproduzir desigualdades quando ignora essas diferenças.

O que pode mudar

Instituir formação continuada antirracista, anti-LGBTfóbica e capacitista para profissionais da rede, com atualização periódica e avaliação de resultados.

Desenvolver protocolos específicos para mulheres negras, indígenas, trans e com deficiência; garantir abrigo compatível com a identidade de gênero; ampliar serviços itinerantes para zonas rurais e territórios distantes.

Produzir dados desagregados e diagnósticos municipais sobre quem acessa, quem abandona e quem permanece sem atendimento.

Fundamentação técnica

A literatura sobre racismo institucional, violência obstétrica e interseccionalidade sustenta que barreiras diferentes exigem respostas diferenciadas. A escuta da redeconecta indica que essas desigualdades aparecem na experiência concreta de acesso aos serviços.

5 · Evidência

Quando a ausência de um serviço deixa de ser visível, a proteção também enfraquece

O que encontramos

A Casa da Mulher Brasileira de Goiânia foi anunciada como serviço integrado de proteção. Segundo os dados utilizados na pesquisa, a obra foi rescindida em dezembro de 2025 com 27% de execução e sem data prevista de inauguração.

A redeconecta classifica o equipamento como “Em implantação / Não acionável”. O registro permanece visível para nomear a lacuna, não para orientar atendimento.

O que isso significa

Quando um serviço aparece em registros oficiais como existente, mesmo sem estar disponível, produz-se uma ficção administrativa que distorce diagnósticos, pesquisas e decisões orçamentárias.

Nomear publicamente a ausência é parte da incidência política e evita que um serviço inexistente seja contado como resposta efetiva.

O que pode mudar

Retomar a obra com cronograma público, orçamento transparente e prestação periódica de contas ou corrigir oficialmente os registros para que o serviço não apareça como disponível.

Enquanto a unidade não estiver acionável, priorizar alternativas regionais de acolhimento e proteção nos municípios sem estrutura suficiente.

Fundamentação técnica

Os dados sobre execução da obra e situação administrativa devem ser revisados e datados antes de cada publicação, porque podem sofrer alteração.

6 · Evidência

Violência digital é uma estratégia de silenciamento das mulheres no espaço público

O que encontramos

Dados nacionais reunidos pela pesquisa apontam altos níveis de ataques virtuais contra mulheres, especialmente jornalistas, ativistas, pesquisadoras e mulheres que ocupam funções públicas.

As agressões incluem ameaças, perseguição, divulgação de dados pessoais, campanhas coordenadas de difamação e tentativas de expulsar mulheres dos espaços de participação digital.

O que isso significa

A violência digital não é um problema separado das outras violências de gênero. Ela pode acompanhar violência doméstica, violência política, perseguição e controle econômico.

Quando ataques digitais são tratados apenas como conflito de redes sociais, perde-se a dimensão de gênero, o risco físico e a estratégia de silenciamento.

O que pode mudar

Incluir a violência digital nos fluxos de proteção, com avaliação integrada de risco físico, psicológico, político e digital.

Criar protocolos especializados para jornalistas, políticas, ativistas, pesquisadoras e outras mulheres expostas a ataques coordenados.

Fortalecer investigação de ameaças, perseguição e divulgação de dados pessoais; responsabilizar plataformas pela resposta a conteúdos de ódio e garantir mecanismos de preservação de provas e proteção da privacidade.

Fundamentação técnica

A análise feminista ajuda a compreender a violência digital como continuação das estruturas que historicamente restringem a presença das mulheres no espaço público. A formulação de políticas precisa combinar segurança, direitos, responsabilização e proteção de dados.

Metodologia

Como estas evidências foram produzidas

  • Mapeamento dos serviços de proteção nos 21 municípios da Região Metropolitana de Goiânia, realizado pela redeconecta entre 2024 e 2026.
  • Escuta territorial com 23 respondentes, incluindo mulheres com experiência vivida, coletivos, pesquisadoras e lideranças.
  • Pesquisa quantitativa “As mulheres e a produção do espaço urbano de Goiânia”, realizada em 2021, com 188 respondentes.
  • Literatura acadêmica sobre revitimização institucional, racismo institucional em saúde, violência obstétrica, fragmentação urbana, patriarcado, capitalismo e produção do espaço.
  • Dados públicos de órgãos federais, estaduais e municipais.

Limites da pesquisa

  • A escuta territorial, com 23 respondentes, não constitui amostra probabilística. Ela aponta padrões e experiências relevantes, mas não autoriza generalizações estatísticas para toda a população.
  • A pesquisa ainda não possui avaliação sistemática da efetividade de cada serviço mapeado. As recomendações sobre integração apoiam-se na escuta e na literatura sobre fragmentação institucional.
  • Os dados sobre mulheres negras, trans, indígenas e com deficiência vêm principalmente da escuta qualitativa e da literatura especializada, e ainda precisam ser ampliados por pesquisas desagregadas.
  • Dados administrativos e números de serviços podem mudar. Devem ser apresentados sempre com data de atualização e fonte identificada.
Compromisso

Pesquisa com rigor, incidência com responsabilidade.

As limitações não enfraquecem as recomendações. Elas mostram o que já sabemos, o que ainda precisamos pesquisar e por que a política pública deve agir com rigor e transparência, sem esperar por dados perfeitos.

Este documento deve ser atualizado continuamente à medida que novos dados, pesquisas e contribuições forem incorporados à redeconecta.

redeconecta · Uma iniciativa da ACCA — Associação Cultura, Cidade e Arte